A casa dos pombos era uma velha construção em decadência, metade tijolo, metade madeira. Os pombos, na quietude da casa abandonada, faziam seus ninhos e se reproduziam à vontade. Em dias de sol, sentavam no parapeito das janelas apodrecidas e ali repousavam, limpando suas asas para depois sairem em revoada, como se o tempo de permanência fosse cronometrada entre eles. Onde as paredes eram de madeira, empenavam com a chuva e enegreciam com o passer do tempo. O soalho apresentava um pó, revelando a presença de cupins que lentamente o reduzia a serragem e tornava-o fofo como um bolo. A vegetação entrava na casa velha e destruida, verde e exuberante, onde a sombra, sempre perpétua nas diferentes estações, era o único elo de vida e alegria para os pombos. Onde o sol batia, em todas as primaveras ressuscitavam flores roxas das glicínias, encostadas nas paredes, que na época mais opulenta da floração trazia para perto da casa insetos e pássaros atraídos pelo pólem. Dentro, um cheiro de podridão gelada imperava, imutável e triste como se um ataúde tivesse sido aberto num cemitério.
Se ali viva alma passasse e, seria apenas uma hipótese vaga, certamente, sentiria a profunda tristeza do lugar. Fora, o sol dividia-se em feixes por entre os buracos da casa e a chuva escorria fácil pelas fendas. Em tudo, no entanto, sentia-se o hálito do frio, escorregava-se no limo verde e escuro e o sol tornava-se triste nos diversos cantos. Indiferentes a tudo isso, revoavam os irrequietos pombos.
Esta casa utrota foi alegre e festiva, alegria saída das dificuldades. Seus habitants primeiro construíram no terreno uma cada com quatro cômodos, para abrigar cinco pessoas. O casal e os três filhos pequenos. O pai, era belo homen de cabeleira castanha acobreada, alto, de andar esquisito de um possível torteza nas pernas, encobertas pela calça surrada. A mullher, não tão bonita como o marido, tinha interessantes olhos cinzas que ficavam verdes quando contrariada. Os filhos, uma escadinha com o mais velho de quatro anos, eram tranqüilos e comportados, todos loiros, cabelo que com tempo escureceria. A mãe tinha predileção pelo cozinha, onde colocou a máquina de costura alemã e onde costurava toda a roupa da casa. A sala era mobiliada com cadeiras de palha, enfeitadas na sua modéstia com trabalhos de crochê e almofadas de retalhos, conforto simples para receber as visitas que se dispunham a percorrer a longa trilha de limo escorregadio, que ia desde o grande portão até a casa, construída depois de um declive, atrás de pinheiros e imbuias seculares.
Neste tempo, a casa dos pombos não era assim chamada, nome que recebeu pelos anos de 1910. À medida que os filhos cresciam, o pai foi acrescentando compartimentos, ampliando a casa com outros cômodos, quarto para o banho, tudo em alvenaria, encostados na parte da medeira. Acrescentou também mais um andar, onde pô uma biblioteca e uma lareira, que dado o declive da casa, deixou a casa bem alta, vista pelo lado de fora. Assim a casa ficou com um aspecto singular, metade m..adeira.., metade tijolos, mas com aparência bonita.
As reformas foram-se fazendo ao longo dos anos e o seu conforto não trouxe benefício para seus moradores, no que se refere à felicidade. Primeiro morreu o pai, no vigor da idade, debaixo das toras da serraria, depois, a fatalidade levou os dois filhos, já adolescents, afogados num dia de verão, um querendo salvar o outro no rio que teimava em sugá-los. Restaram Angélica, a mocinha de quinze anos e a mãe, que fechou a casa e mudou-se para o centro de Curitiba. O local ficou conhecido como assombrado e não encontrou novo dono.
Sem cuidados, o telhado da casa começou a desabar, a casa ficou para os pombos, deserta e abandonada, o mato cresceu pelas pedras da trilha e um silêncio sepulcral tomou conta do lugar.
Assim estava a casa dos pombos quando em 1930 um acontecimento fez vibrar a quietude tumular do local. Um vulto, se olhando de longe, movia-se entre as ruínas. Parecia um fantasma, tão mansamente subia as escadas perigosas. Foi ter até o ultimo andar e sentou-se no beiral da janela, olhando o derredor, verificando a extrema altura desde cima até os rés do chão. Tratava-se de uma mulhar que aquietou-se ali, imóvel e estranha como espreitando um acontecimento.
Nisso, surgiu na trilha de saibro e musgo, um homen vestindo calças pretas e paletó de veludo verde-escuro. Do alto do caminho avistou a casa. Tinha parado de chover mas as àrvores ainda deixavam cair grossos pingos que lhe batiam na nuca. Dirigiu-se à porta emperrada da entrada e afastou-se devagar. Olhou o relógio. Eram quatro horas da tarde. Depois de percorrer os cômodos vazios como se procurando alguém, subiu mais um lance de escada e chegou ao terceiro andar do sobrado. Lá, sentada quietamente no beiral balançante da janela esperava-o a mulher.
O que aconteceu entre o home e ela, naquele encontro insólito, em lugar estranho, o que foi ditto, que recriminações trocaram, não se sabe. Quando a mulher gritou, um bando de pombos revoou do local. O corpo feminino escorregou do parapeito e estatelou-se no chão. Quando caiu, parte da janela despencou junto, caindo por cima do corpo frágil. Daquela altura do sobrado parecia morta, pela posição torcida do pescoço. O homem moveu-se para trás, a princípio de costas, recolhendo as mãos que tinham empurrado o corpo, fitando a janela vazia. Depois, apressadamente, desceu meio sem cuidado as velhas escadas e saiu do local sem olhar para os lasdos. Já longe da casa voltou os olhos para trás enquanto agasalhava o pescoço, levantando a gola do paletó, como se o que acabara de acontecer lhe desse frio.
Frida preparou-se para o encontro. Tremia de decepção e ódio. Queria matar. Mataria se tivesse coragem. Mas não. Teria vingança melhor. Prepararia uma armadilha. Adriano não a queria. Quando, finalmente, encorajou-se a revelar seu amor por ele, ela a repudiara, estampados no rosto surpresa e aversão. Esperou tantos anos por ele, e ele jamais a olhou como mulher, nunca desconfiou de seu amor, sua obsessão, seu fingimento quando estavam com Angélica. Confessou que se fazia passar por Angélica quando o velho carteiro entregava suas cartas da Áustria. Confessou com prazer, com raiva, olhando fixo para seus olhos, saboreando a amargura dele por ter sido enganado por pessoa tão próxima. Odiou Angélica, a eternal amada, com ódio feroz e irracional.
Qual a causa de tamanha revolta? Adriano retornou depois de vinte anos, e suas esperanças ressuscitaram. Poderia agora conquistá-lo. Voltou viúvo e depois da morte da única filha. Adriano escreveu aos pais que ia ficar na Áustria e que se casaria por lá e Frida compreendeu que cometera um erro quando não permitira a Angélica responder suas cartas. Depois de dois anos de sua partida, sem notícias, ela se casara e em seguida, ele também. Separou o casal mas não levou vantagem. Só conseguira afastar Adriano para longe de Curitiba e, principalmente, dela. Os dias que tinha ficado à espreita do carteiro para que as cartas não chegassem ao seu destino, tinham sido em vão.
Quando a mãe de Angélica foi morar na rua Serrito, dentro de Curitiba, morava na mesma rua um casal de austríacos que tinha filho único. Adriano era o orgulho dos pais, destinado a estudar engenharia na Áustria. Com quase dezoito anos, o rapaz stava para completar o Liceu. Conheceu Angélica e por ela se apaixonou. Como a princípio as paixões são apena encantamento, nem ele mesmo sabia que aquele início de interesse seria um amor verdadeiro que duraria a vida toda.
A princípio apenas se cumprimentavam. Logo passaram a conversar e depois virou um namoro. Iam à missa juntos, a uma ou outra festa de batizado ou casamento. A mãe de Angélica aprovava o namoro. Os pais do jovem nem tanto. A moça era modesta demais para ele e Adriano não devia se desviar dos estudos.
_ Cabeça quente com namoro não dá conta depois.
_ Não se preocupe pai.
Logo Angélica conheceu a prima do namorado. Chamava-se Frida e vinha de ....Ponta Grossa.... de mudança com os pais. Frida tinha dezessete anos, era engenhosa na cozinha, fazia tortas maravilhosas. Seca ao falar, pouco perguntava e quase nunca respondia. Angélica e Adriano nem perceberam a contrariedade dela ao vê-los juntos.
Estavam apaixonados e ignoravam-na, mesmo porque ela fazia de conta que não se apercebia deles.
Eles entravam e saíam da casa de Adriano e nunca desconfiaram da presença constante da prima na casa do moço. Nem os olhares de despeito que esta lançava para Angélica. Olhos de um azul de aço desbotado. Ela era feia, sem graça, ruminava. Comparava-se. Angélica era viçosa, faces rosadas, dentes bonitos, sempre sorridente. Ela, tinha natureza taciturna, pensava amargurada. Os dois às vezes iam visitar os tios dele e, encontravam com Frida na cozinha, pegavam grandes fatias de torta que a prima fazia, sem nunca perguntar se podiam, agradeciam, elogiavam o sabor e saíam rindo para conversar a sós em outro lugar. Nem viam o olhar malévolo dela. Aliás, a prima de Adriano era hábil na dissimulação de sentimentos. Com suas atitudes alimentavam o despeito e a inveja de Frida pois a natureza lhe dera uma ....alma.... cheia de conflitos, medos e complexos, combinação perfeita para fazer dela uma criatura perversa e dissimulada.
Assim, chegou o tempo de Adriano partir estudar engenharia civil. Frida flagrou a conversa dos namorados, dele escrever para ela sempre e casarem-se logo depois da volta. Seriam seis anos longe. Angélica disse que esperaria, que responderia a todas as carta dele. Diante desse compromisso, firmado no jardim da casa dele, encostados no tronco de um pinheiro, sentiram-se noivos e pela primeira vez deram-se as mãos e se encaminharam para a casa para participarem o compromisso aos pais dele. Depois, foram até a casa de Angélica, e Adriano, muito corado pediu a mão de Angélica em casamento. A mãe consentiu, contente com o bom casamento que a filha faria.
Nem perceberam a proximidade de Frida em todos os lugares que foram. Seu rosto estava corado e não cumprimentou os dois. Angélica notou mas não entendeu o significado. Depois retirou-se sem cumprimentar ninguém, o que não estranharam porque aqueles eram seus modos. Mas quem visse seu rosto veriam o despeito estampado. Achava-se feia demais, magra demais para merecer o amor e a atenção de Adriano. Não que Angélica fosse de estrema formosura. Era uma moça razoalvemente bonita, se vista por quem não sofresse de complexos como Frida. Contudo, tinha uma qualidade que Frida não tinha. Era inocente e destemida como só as pessoas inocentes podem ser, direita em seus pensamentos, enquanto que a outra era tortuosa e demorada em entender uma titude alheia, procurando sempre ver o lado negative nas pessoas.
Os preparativos para a partida estavam se finalizando. As passagens compradas, as malas feitas, Adriano deveria pegar o navio em Paranaguá e seguir até o ..Rio... De lá, viajaria pra a Europa. Frida aproveitou-se da partida iminente do primo para estar semrpre na casa dele. Conseguiu dizer algumas palavras para se fazer entender que como não ia vê-lo por muitos anos queria estar em sua companhia mais um pouco. Chegou o dia da partida. Angélica e Frida com os familiares, foram lever o moço até a plataforma da estação de trem e acenaram quando ele se despediu. Frida chorou tanto quanto a noiva. Os parentes disseram:
_ Viu como se gostam os primos? São como irmãos.
Vinte anos se passaram no tempo de um suspiro. Adriano voltara aos trinta e oito anos e conservava os memos traços bonitos da juventude. A única diferença era o olhar envelhecido de mágoa escondida. Todos pensavem que o desgosto se referisse à morte da filha, aos doze anos, vítima da febre tifóide, perda que vinha se somar à morte da esposa anos antes. Ele penava passado tanto tempo, ainda inconformado, pela perda de Angélica. Ela não respondeu às suas cartas, vinte anos atrás e, tempos depois se casou com outro. Adriano dizia para a prima que perdera dois anos grandes amores: a filha e Angélica. Confidência ingênua e triste dirigida a uma pessoa que muito mal lhe fizera. Esta era o grande tormento de Frida. Virar a confidente do primo. Tudo que lhe vinha à cabeça ele confidenciava, sempre referindo-se à antiga paixão. Diferente dela, não escondia suas mágoas. Enquanto isso Adriano ia despertando o despeito e a raiva também em relação a ele, porque ela já tinha estes sentimentos a quase a todas as pessoas.
Disfarçada, ninguém poderia imaginar que aquela mulher de quase quarenta anos jamais amara alguém além do primo. Com o regresso dele a Curitiba, Frida melhorou seu comportamento. Ainda nutria alguma esperança de que ele olhasse para ela como uma mulher. Tornou-se serviçal e prestativa para com todos, sempre pronta a atender os pedidos dos outros para impressioná-lo. Ele notava sim, todas as bondades da prima, como era trabalhadeira e atenciosa aos amigos e parentes. Ao contrário dela, ele não a achava feia, considerava-a bonita com sua cintura fina e mãos alongadas. Gostava de prima. Foi seu erro. Frida desenvolveu um complexo aterrador diante dele. Ele não a queria, segundo seu entendimento, porque ela era feira e desinteressante e ainda amava Angélica porque era bonita. Seus critérios eram simples assim. Nunca conjeturou que o primo não a amava porque o amor se desenvolve de uma maneira estranha. Amizade era um atributo que Adriano poderia destinar a Frida, nada mais. Enquanto nela os laços familiares geravam um amor de mulher para um homem, neme esses mesmos laços se encaminharam para um fraternal afeto. Mas uma coisa ela tinha em comum com o primo: amavam uma pessoa só para toda a vida.
Um dia eles estava em sua casa, no jardim, quando Frida chegou e pensou em dizer alguma coisa de seus sentimentos. Encostado em um pinheiro estava ele olhando para algo invisível.
_ Que foi prima?
_ Nada, só estou querendo fazer companhia, vi-o tão sozinho.
_ Sabe, falou ele. Foi aqui que pedi Angélica em casamento. Eu tinha dezoito anos.
Frida levou um susto. Quando viu o primo ali, com seus pensamentos longe, não imaginou que ele estivesse lembrando de um fator acontecido há tanto tempo. Respondeu, sem poder controlar.
_ Ela nunca gostou de você.
_ Sim, é verdade isso que você diz, não respondeu às minhas cartas, casou, falou desconsolado.
_ Você foi por muito tempo. O que queria de uma criança?
_ É mesmo. Não há na minha vida um dia que eu não lamente não ter o destino me dado Angélica. Sinto-me injustiçado. Como posso achar que a vida tenha sido justa comigo, se perdi também a minha filha?
_ Do que você está falando? Não entendo, primo.
_ Deixe para lá, vamos entrar.
E tomou o rumo da porta da cozinha para bebericar um pouco de café que estava no bule, em cima do fogão ainda aceso. Ficou ali, ainda a pensar, quietamente, quando viu que Frida tinha se postado atrás da caderia onde estava sentado. Virou a cabeça e perguntou, pressentindo que ela querai lhe dizer algo.
_ Que é Frida? Quer me falar alguma coisa?
Queria e, mais uma vez não teve coragem. Balançou a cabeça, negativamente, deu meia volta e saiu da cozinha, quietamente, como era seu costume. Dirigiu-se aos quartos porque ainda eram dez horas da manhã e precisava verificar se estavam bem arrumados porque não
confiava na empregada. Vistoriou tudo, meio nervosa com o que o primo tinha falado. Não entendia tudo o que ele falava, ele era mais inteligente do que ela, pensava, mas suas palavras ficaram a martelar na sua cabeca e um mal-estar permanceceu com ela o dia inteiro. Ele só lembra dela, Angélica, pensou enciumada, contrariada, impotente. Tudo o que fez para tê-lo só para ela tinha sido em vão.
Este pensamento martirizou-a vários dias. Não viu Adirano neste periodo mas a angústia tomou conta dela até sentir nauseas. Foi aí que foi ter com o primo e revelar-lhe tudo: seu amor por ele e sua farsa, as cartas que nunca chegaram ao destino. Por amor a ele. Foi rejeitada. O rosto dele lívido de sofrimento, levando um tempo até assimilar o que tinha acontecido. Chamou-a de louca e em desespero saiu de casa. Louca, ela. Mas ela se vingaria. Adriano precisava ser castigado.
Escreveu um bilhete convidando-o para se encontrarem no dia seguinte na casa dos pombos, para recordadem o passado e, enviou-o pela empregada. A criada não sabia ler e Frida certicou-se da entrega.
No dia seguinte à hora do encontro continuaria seus planos. Seu coração estava amortecido, sua mente não conseguia mais raciocinar direito. Ela toda morreu para qualquer espécie de ternura. Ele não a queria. Escreveu outro bilhete. Nele confessava o que tinha feito para Adriano, que interceptara as cartas da Áustria, vindas para Angélica, contava o que ele, incrédulo, custou um pouco a entender. Contava que na revolta, o primo a ameaçara de morte e que agora ele tinha pedido em encontro na casa dos pombos. Dizia mais. Que sabia que ele a mataria, mas que ela o amava e preferia morrer, perante o ódio e o desprezo do rapaz.
A penteadeira tinha um grande espelho colocado de comprido, na vertical e, em cima de um móvel baixo. Era uma peça, de imbuia maciça, grande e pesada, posta meio de lado para a janela. Frida colocou o bilhete encriminador na penteadeira, perto da janela aberta, encostado no bibelô da bailarina, fina e leve peça de porcelana alemã. Pôs seu melhor vestido, arrumou o cabelo lentamente e olhou-se no espelho e se viu como pensava que era: loira e sem graça, feia. Vendo-se assim, pareceu-lhe que seu ardil estava estampado no rosto. Seus feitos urdidos durante anos refletiam-se no espelho. E se alguém da família chegasse e a visse, será que descobriria seu intento? Sacudiu A cabeça e rapidamente saiu da casa.
Quando estava virando a rua Serrito, já a duas quadras longe de casa, escutou o primeiro trovão. Logo começou uma ventania como ela nunca viu na cidade. Será que os céus sabiam o que ela ia fazer? Seguiu para fora da cidade, pouca gente na rua, apressados, os demais confinados em suas casas ou nos armazéns, para escaper da tempestade. Andou um bom tempo e avistou o portão da casa dos pombos. Entrou, molhada do aguaceiro.
A notícia do achado do corpo percorreu a cidade. Com a ausência prolongada da mulher fez-se buscas. Não havia uma casa em toda a Curitiba que não comentasse o fato.
_ Ela atirou-se da janela, diziam. Suicidou-se. Porque será que foi, perguntavam-se. Já a polícia indagava mais. Porque será que ela tinha escolhido aquele local isolado para atirar-se de uma janela? Instalou-se o inquérito policial, vasculhou-se tudo. O senso comum indicava que uma pessoa como Frida não tinha inimigos, era discreta e amiga de todos, crime não poderia ser. E a polícia continuou a investigar.
Adriano estava no café a bebericar uma xícara, sentado sozinho, na mesa da calçada. Era um dia quase frio, desses que só acontecem em Curitiba, no outono. Lia o jornal, com o noticiário da investigação da morte da prima, após um mês da sua morte. Ao levanter a vista, viu Angélica passar com os dois filhos, loiros como ela. Lembrava-se que era linda assim. Estava desacompanhada do marido. Ela o viu e cumprimentou-o com a cabeça, um movimento muito ligeiro, quase imperceptível. Adriano respondeu do mesmo modo e um sorriso de amargura repuxou os cantos da boca e uma sombra em seu olhar pairou alguns momentos em agonia. Ela passou, caminhando sem pressa. Depois, virou a esquina da rua Quinze dobrando à direita, descendo a Rua Barão do Rio Branco, em direção à estação ferroviária. Adriano pensou: _ Com Certeza vai para Ponta Grossa.
Acompanhou com o olhar a jovem senhora, passado de um amor perdido, viu-a sumir na curva da rua e depois, olhando para o jornal, continuou a ler. Terminou a material. A conclusão da polícia pela morte de Frida, fê-lo pensar. Depois, levantou-se e pela primeira vez, num rápido instante, um sorriso de contentamento passou-lhe aos olhos, mas logo desapareceu. Levantou-se, deixou o pagamento do café em cima da mesinha redonda. Uma brisa agitou a rua. Adriano sentiu um calafrio. Instintivamente, num gesto habitual, levantou a gola do paletó de veludo verde escuro. Abandonou ali mesmo o jornal e se pôs a caminhar de volta para casa. Eram seus últimos dias em Curitiba.
O que trazia o jornal de definitivo sobre a morte de Frida? O inquérito policial concluía pelo suícidio e arquivava o caso.
Como Frida não previra o desfecho dos acontecimentos? A tempestade que caiu no dia em que fora encontrar-se com Adriano provocou forte ventania que fez revoar as cortinas de seu quarto, violentamente. A bailarina de porcelana enroscou-se ao longo dos panos, caiu e soltou o bilhete, que no vaivém, voou para fora e caiu num arbusto, recebendo toda a chuva, desmanchando a tinta da escrita. No dia seguinte, a empregada varreu o insignificante papel e colocou-o no lixo. E Frida estava morta. Mas uma vez tudo for a em vão.
E assim, um segredo nunca revelado, tomou conta da Cada dos Pombos.
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