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Iniciava o mês de setembro do ano de 1892. Em Curitiba, Caetano em seu quarto acabara de levanter-se naquela manhã friorenta quando a negra Zenóbia veio chamá-lo. O pai dele queria falar-lhe. Bateu na porta e chamou:

_ Sinhô Caetano, tá levantando?

_ Sim, Zenóbia. Que foi?

_ O pai qué falá com sinhozinho.

_ Vou descer logo Zenóbia. Nuns cinco minutos.

_ Tá bom.

Zenóbia descendo as escada, dirigiu-se até a copa e avisou a Josué Prado ter dado o aviso. Depois, foi até a cozinha para acabar de fazer o café da manhã. Neste instante chegou Lina, a criada polonesa, para começar os trabalhos caseiros daquele dia gelado.

_ Tá frio, hoje. Comentou, assoprando as mãos para aquecê-las com o bafo. E entrou sempre bem disposta para iniciar as tarefas caseiras, fechando a porta e deixando fora a cerração trazida pela manhã de sol sem calor nenhum.

No quarto em cima, o jovem vestiu-se e pôs seu paletó de lã inglesa. Saiu do aposento descendo as escadas de casa alcançando a copa, onde julgava estar o pai àquelas horas da manhã. Lá, encontrou-o a olhar o jardim pela fresta deixada pela cortina da janela. Acompanhava-o um senhor de ar tão solene quanto o dele. Quando entrou na sala, os dois voltaram-se para o moço.

_ Meu filho, foi logo dizendo. Aqui está o Dr. Asteclínio, advogado de Ignacio Silva Medeiros, meu grande amigo, falecido há pouco no ..Rio.., onde morava há muitos anos. Ele se foi daqui quando você eram recém nascido e portanto os dois não se conheceram. Crescemos juntos, éramos inseparáveis. É uma lástima seu passamento. ....Como.... sua última vontade, expressou o desejo de dar-lhe sua filha Iolanda em casamento. A moça, segundo o Dr. Asteclínio, é formosa e prendada. É um privilégio para nós Ignacio têla destinado para ser sua mulher. Você já tem idade para casar. Eu faço muito gosto neste enlace. Deverá esposá-la, conforme a sua última vontade.

O pai dissera isso de um supetão, denunciando o homem acostumado a dar ordens e num tom não admitindo contrariedades. Caetano quis retrucar mas o velho reafirmou.

_ Faço muito gosto, meu filho.

O jovem quedou-se mudo por alguns instantes, com o cérebro fervilhando, sentindo-se aturdido. A notícia dada sem rodeios, deixara-o sem fala. Conhecendo seu pai, sentiu estar numa armadilha.

Depois, foi a vez do advogado, tão idoso quanto o outro, falar.

_ O senhor Ignacio Silva Medeiros concedeu-me a honra de lavrar em testamento suas últimas vontades e nomear seu pai, Josué Prado, como seu testamenteiro. Ele deverá ser lido após o enlace. Trouxe para vossa mercê o retrato de dona Iolanda entre a minha bagagem. Depois o busco e lho entrego.

Dizendo isso, tirava da pasta de couro alguns papéis e um envelope, supondo Caetano ser o dos papéis do testamento.

Ele, contrariado, nada falou. O pai, julgando estar tudo acertado continuou dirigeindo-se ao advogado.

_ Vossa mercê deveria ter vindo diretamente para cá quando chegou ontem e não se acomodar em um hotel, que é muito impessoal, não está entre amigos como em minha casa. Mandarei buscar seus pertences na hospedaria e o alojarei junto de nós. Depois de tomarmos o café, se preferir, poderemos saborear uma cuia de mate.

E levou o visitante para a copa, sem dar mais atenção ao filho.

_ Obrigado, disse o advogado, acompanhando o senhor da casa, mas levantei bem cedo e já tomei o meu café. No entanto, aceito a hospedagem e a cuia de mate. Farei companhia ao amigo.

Caetano Prado saiu sem comer. Era cedo ainda. Caminhava, a esmo. Pensava, não podia acreditar. Casar, Não conhecia a noiva. Entendia porque seu pai desejava vê-lo casado. Envolvera-se com uma mulher de nome Teresa. O marido dela, trapeiro, fora em busca de gado em Viamão, no Rio Grande do Sul e desaparecera. Há seis anos não dava notícias. Teresa não era, portanto, nem solteira, nem viúva. A união era inviável para eles.

Estava com 24 anos e talvez, por causa de Teresa, não se interessasse por outra mulher. Ela não era nenhuma grande beleza nem uma grande paixão. Estava apenas acostumado a ela. Desejou

vê-la. Tomando a rua da Liberdade, desceu até a estação ferroviária, perto de onde Teresa morava em ampla casa. Aproximou-se. No entanto, considerou estar por demais movimentada a rua e o povo poderia ficar curioso. Esteve tentando a subir a escada dos fundos. A caminhada no ar frio de manhã o tinham acalmado. Resolveu voltar para casa.

Entrou na cozinha. A negra Zenóbia coara café fresco, o aroma misturando-se ao escuro pão de centeio recém saído do forno, a manteiga recendendo a leite batido. Um bolo de fubá fumegava em cima da mesa. Sentou-se e comeu com apetite servindo-se de duas fatias do bolo. Depois, calçando as luvas, foi até o escritório na Rua da Liberdade, onde trabalhava com seu pai, em um próspero comércio de erva-mate para a Argentina. Trabalhou até o meio-dia, fazendo a contabilidade das barricas de pinho saindo estocadas do produto beneficiado, num vai e vem de carroções carregados da mercadoria. Parou para o almoço. Voltou para casa entre as ruas enlameadas porque chovera na véspera, alcançou a Praça Tirandentes, dirigindo-se para a Rua Fechada. Precisava falar com o progenitor.

Na copa aquecida pela grande lareira, encontrou-o e o Dr. Asteclínio esperando por ela para o almoço. O velho advogado, já com a fisionomia menos cansada e melhor agasalhado, comprimentou o jovem. O dia estava realmente frio, mas não para o exagero de roupas sobrepostas pelo causídico. Podia se ver um pullover de qunte, por baixo de um capote grosso de lã inglesa e um cachecol tricotado enrolado no pecoço. Viu de soslaio as luvas separadas, em cima da mesa. O homem estava perfeitamente à vontade com toda aquela vestimenta. Caetano perguntou-lhe se não s sentia abafado, ao que el respondeu que não, apesar do rosto estar corado de quentura. E continuou:

_ Sou do Rio, lá é quente, daí estranhar um pouco sua terra.

Enquanto o Dr. Asteclínio falava, entrou um garoto com achas de lenha encomendadas da Rua Serrito, perto da casa de Caetano. O piá levando com jeito uma braçada para perto da lareira depositou-a no caixote, depois tirou o boné e ficou esperando respeitosamente que lhe dessem atenção. Falou, quando todos olharam para ele:

_ Seu Caetano, preciso falar-lhe:

_ Sim, diga.

_ O senhor poderia dar-me um emprego de aprendiz no seu escritório?

O menino falava nervosamente, torcendo o boné de lã nas mãos. Ao pai do moço não ousara dirigir a palavra, o que Josué Prado não pode deixar de perceber e teve um meio sorriso de compreensão. Sua fama de sisudo era grande. Ouviu o filho falar:

_ O que você sabe fazer?

_ De escritório nada sei, mas aprendo rápido. Entregar lenha do depósito paga pouco e eu quero ganhar mais.

Caetano pensou, momentaneamente esquecido do assunto sério a ser tratado e demorou uns segundos para dar a resposta. Olhou bem o menino, pareceu-lhe saudável e esparto. Seria um bom ajudante. Perguntou-lhe a idade.

_ Doze, seu Caetano.

_ Seu nome?

_ Manoel Limeira Vasconcelos, disse o menino num fôlego só.

_ Está bem, piá. Passe lá no escritório amanhã e falaremos então.

_ O garoto sorriu, contente com sua sorte, agradeceu e retirou-se.

Depois dessas amenidades, o advogado entrou logo na conversa referente a todos.

_ Senhor Caetano, quero seu perdão pelo contratempo por mim cometido, porém trazia para vossa mercê o retrato de dona Iolanda e creio tê-lo deixado desgarrar da bagagem no navio ou no hotel onde me hospedei em Paranaguá. Vou providenciar sua busca imediatamente. É uma verdadeira macadam, estou deveras contrafeito. Vim a Curitiba com vários encargos dos meus clients, trouxe muita bagagem e esqueci de dar uma atenção melhor para o embrulho do retrato. Mais uma vez, queira me perdoar. “Mais essa contrariedade”. Pensou. Educado, somente pode menear a cabeça indicando entender a situação do advogado, quando já Josué Prado se punha a falar.

_O casamento com dona Iolanda sera bom para você. A moça, segundo Dr. Asteclínio, além de formosa e prendada, era ótima filha. Será uma boa esposa, como você, sera bom marido porque é bom filho.

Os dois disseram isso como se fosse a continuação de uma conversa não interrompida há horas. Viu ser sua vez de falar:

_ Meu pai, sou moço, não apreciaria prender-me a um compromisso tão cedo, gostaria de gozar ainda minha liberdade de solteiro e escolher a moça com quem fosse me casar. Não conheço dona Iolanda, não lhe tenho afeto.

Sentindo-se contrariado, o velho homem ficou vermelho e retrucou:

_ Conhecê-la é de menos. E o Dr. Asteclínio considera a moça bem bonita. Faço muito gosto. O casamento se realizará por procuração dentro de dez dias.

_ Dez dias? Sem conhecê-la? Repetiu. Nem menos tenho o seu retrato, nem sei como é. Se o senhor advogado a considera bonita eu posso não ter a mesma opnião.

_ Isso não importa, e você não poderá ir ao Rio porque temos muito trabalho aqui. A vontade de meu falecido amigo Ignácio para mim é uma ordem. É só o tempo do cartório preparar os papéis do casamento.
E deu por encerrada a conversa, olhando para o filho de um modo bem conhecido por ele, para não contrariá-lo...

A História de Iolanda continua, adquira sua cópia, entre em contato com:

Ivete Sanford
Telefone Brasil: (41) 3354-7639
From abroad: (55) 3354-76-39
E-mail: escritora@ivetesanford.com

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